Nem sequer mexia uma palha

A palha não mexe, a folha não cai,
a carruagem não se ouve a passar.
Só a calma se vê
na luz pálida do mar.
Só a luz verde do farol
se ilumina intermitente
e nos lembra quem somos.

Ouvem-se melros
e os verdes papagaios urbanos,
que vindos de longe habitam
numa improvável simbiose,
a nespereira doce e profícua.
Agora só o silencio se ouve,
lembrando-nos que somos humanos.

O cheiro doce da dama-da-noite
chega-me com o luar
despertando o sonho apagado.
Fecho os olhos,
o cabelo agora voa
levando-me, a mim,
numa levitação amniótica segura.

A pele agora ferve,
com os poros de suor abertos.
O corpo tenso contorce-se
numa sesta febril e carnal
onde as entranhas gulosas e satisfeitas
se intrometem nos meus desejos
com um sapateado visceral.

Luísa Costa Macedo 
Abril 2017