E ontem foi dia de ler o meu conto "A vida nos livros" à turma de 7º ano do meu filho.

O meu conto "A vida nos livros" foi desenvolvido no âmbito do passatempo da Bertrand sob o mote  "Este Natal troque o mundo digital pelo mundo real, troque telemóveis pelas pessoas: ofereça um livro e fique mais perto de quem lhe toca". Houve cerca de 300 participantes e o meu conto foi um deles. 


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" A Vida nos Livros"

A VIDA NOS LIVROS
de Luísa Costa Macedo

Havia muito tempo que aquela estante estava para ser pintada. Os livros estavam todos dentro de caixas de cartão à espera da nova montra mas os fins de semana eram curtos e havia sempre outras prioridades.
Nesse fim de semana o pai já tinha feito um ultimato à família:
- É este fim de semana que vamos todos pintar a estante e arrumar os livros? Daqui a pouco é natal e ainda não temos a sala montada! - argumentava sorridente.
Todos respondiam que sim, mas continuavam os seus afazeres eletrónicos, ora a jogar jogos no telemóvel e tablet, ora a trabalhar no computador ou a fazer zapping de sofá.
E a parede continuava vazia, suspirando em silêncio, e deixando a casa fria e nua. Faltava o calor dos livros, das lombadas coloridas e do conforto da sabedoria, sempre presente e disponível para nos iluminar, sem precisar de bateria ou sinal de rede.
Sem se intrometerem, os livros estavam sempre lá, prontos para ensinar, fazer sonhar, inspirar, entreter. Mas também revoltar, criar, ambicionar, meditar, pensar, rir e chorar.
Havia, pois, que tomar medidas mais enérgicas e combinaram todos que no sábado seguinte seria dia de montar a árvore de natal, o presépio e também, finalmente, pintar a dita estante. Os livros não podiam estar mais tempo a ganhar pó!
Todos se animaram a decidir de que cor a iriam pintar. A mãe e o pai queriam pintá-la de branco, pois atualmente era muito escura, mas os miúdos pediam mais cor:
 - De laranja, de laranja! – exclamavam o João e o Manuel.
Chegaram por fim a um colorido consenso: seria pintada de branco e laranja.
Entre fios brilhantes, luzes, musgo, trinchas e latas, a sala estava uma animação e já cheirava a natal e a tinta. A estante secava agora, brilhante e quase nova, à espera dos seus companheiros de viagem, os livros que acompanhavam aquela família há vários anos.
Era já domingo à noite quando se juntaram à volta das carregadas caixas e, com a lareira em frente acesa, um a um, os livros foram sendo retirados, limpos e admirados antes de serem colocados no seu pouso.
Mas toda esta tarefa se veio a revelar mais longa e emotiva do que a família imaginava.
Os livros da bisavó, com encadernações em couro, e os títulos prensados a ouro quente, mereceram leituras dramáticas em voz alta e espanto por parte dos mais pequenos.
- Oh mãe, esta palavra não se escreve assim! – dizia o mais novo.
A mãe explicou-lhes:
- A língua portuguesa é uma língua viva e está sempre em evolução. Há palavras que se escrevem hoje de forma diferente, outras que entraram em desuso e outras novas que vão surgindo. Os livros refletem a época em que foram escritos, mas há ensinamentos, reflexões, emoções e valores que são intemporais.
Há histórias que se escreveram há vários séculos e, quem as lê hoje, ainda se identifica com elas. Há pensamentos filosóficos e teorias desenvolvidas no passado que estão tão atuais que parece que foram escritas nos dias de hoje! – refletiu a mãe.
- O mundo mudou, mas continuamos a ser humanos. - acrescentou o pai com uma piscadela de olho, revelando o seu prazenteiro bom humor.
Guardaram então os livros mais antigos com grande destaque. Nas lombadas descobriam-se os grandes mestres da língua portuguesa, alguns históricos franceses, outros, que tendo as capas forradas em papel de embrulho, se adivinhava terem sido, noutros tempos, obras censuradas, em que o carimbo visível no interior o confirmava.
As completíssimas enciclopédias, os grandes poetas, coleções de aventuras, policiais dos reputados mestres do suspense, fábulas, todos iam ocupando o seu espaço.
E os mais modernos, com os seus mil e um formatos e cores ocupavam também as prateleiras. As geniais bandas desenhadas, os saborosos livros de culinária, os expressivos livros infantis, os calhamaços universitários rascunhados, os de empreendedorismo e outros ismos, os de autoajuda, os de decoração e as interessantes revistas colecionáveis. A estante ia ganhando forma e com ela a casa ia ficando mais bonita, mais aconchegante e mais familiar.
O fim de semana à volta dos livros prolongou-se ao longo de toda a semana.
Olharam orgulhosos para o trabalho feito durante vários dias e em cada dia decidiram escolher um livro ao acaso. Numa noite liam um capítulo, noutra um conto, um poema ou uma história. Já não eram os livros que ganhavam pó mas o tablet já parecia da pré-história.
Até um almoço tinha sido marcado com uns amigos de longa data, sob o (bom) pretexto de se devolver um livro há muito emprestado e esquecido. E a conversa fluíra.
- Não fosse o livro e nunca mais combinávamos nada!
- Pois é. Agora só falamos pelas redes sociais! – lamentava o amigo.
Decidiram que nesse natal iriam oferecer leitura! Afinal havia livros para todas as idades e feitios. Até para aquele tio macambúzio ou para a prima que só ouvia música aos altos berros.
Deixaram também uma prateleira vazia para aqueles livros que estavam para vir, para os que que iriam receber, para as histórias que ainda estariam estão por contar e para as aventuras que iriam viver.
Resolveram enfim reservar uma prateleira para livros que tivessem grande significado para a vida de cada um dos elementos da família.
O livro com animais que era o preferido do João quando este ainda não sabia ler e o do abecedário ilustrado com as rimas do Manuel.
O manual sobre a maternidade quando a mãe estava grávida pela primeira vez e surgiam mil e uma dúvidas sobre o tema. E anos mais tarde, o livro sobre a adolescência que o pai comprou quando o filho mais velho entrou na chamada idade do armário.
A poesia preferida da mãe, os romances medievais que faziam o pai sonhar, o primeiro grande romance que os marcou, a trama que os emocionou. A estante estava cheia de história.
- Já repararam? A nossa vida está toda nos livros! – disse um dos rapazes.
E estava.

                                                          
                                                  Este foi o meu conto concorrrente ao
                                                  passatempo de natal da Bertrand "A Tua história começa aqui". 
                                                                                  

 .

Fora do tempo


Nostalgia do nunca vivido
Falta do não experimentado
Saudades do manjar adiado
E da época do tempo sentido.

Recordo o aroma adormecido
Sinto a herança do manto pesado
E na pele do guerreiro estafado
Glorioso feito, em pano tecido.

Traço em linhas desconhecidas
O corpo nu que em vão cortejo.
Abro mais as minhas feridas.

Descubro a fome do que não sei
Marco na pele o vão desejo.
Rasgo tempo, sou um fora da lei!

Luísa Costa Macedo
Novembro 2017