CONTOS DE QUARENTENA


UM OUTRO ANO


   O café no copo descartável tomado sobre a barreira improvisada à porta do snack-bar não me sabia ao mesmo. A velhota de muletas, o que faria ela ali pobre senhora, pediu-me para lhe apanhar o saco. Olhei-a com olhar de surpresa vergonhosamente medroso, pus a máscara, pedi para se afastar um pouco e com a mão envolvida no meu casaco entreguei-lhe o saco das compras. Disse-me docemente que não me preocupasse pois tinha acabado de vir do posto e estava desinfetada. Respondi-lhe em desalento que não era por causa dela, era por minha causa a hesitação. Só me apetecia dar-lhe um abraço, levá-la a casa para que não fosse ladeira acima, com mil paragens para descanso. No meu bairro havia de tudo. Sem máscara, de chinelos, de roupão, com o cão, a correr, de cigarro na ponta dos dedos, em amena cavaqueira ou de proteção posta e saco debaixo do braço. Respeitavam, no entanto, todos a distância e parecia que a vida ali tinha sido sempre assim. Pensando bem, os velhotes faziam exatamente aquilo que já faziam antes, saiam para comprar pão e pouco mais ou iam à farmácia. Já antes falavam com as compras na mão e distanciados, de tronco virado como se a conversa que tinham agora iniciado estivesse também no seu término. A pressa de ir para casa. Os que ficavam horas no carro a aquecer antes de esfriar quando entravam nas suas casas velhas também já o faziam. Tardes no assento quente a ouvir a sua rádio, lendo o jornal novo de páginas velhas ou a dormitar. Começaram a aparecer pessoas novas, viviam ali há anos, mas só agora se viam obrigadas a fazer vida na sua rua. Os mesmos das esquinas, olhavam para esses, como novas espécies exóticas, desenquadradas das caras dos passeios de sempre. 
  No meu caso a claustrofobia começava a apertar. Coloquei os caixotes dos recicláveis no carro e disse em casa que ia ao lixo. Não havia caixotes próprios na minha rua e ia sempre a uma rua um pouco mais abaixo. O ato de levar o lixo outrora repudiado e adiado era agora ansiado. Era um bom alibi.  
    Com a tralha toda no porta bagagens fui andando, inicialmente sem destino, depois com um objetivo de fuga temporária ao lar. Com a música na rádio parecia que estava tudo bem e só a estrada parecia um pouco mais mole. Passavam por mim alguns carros adormecidos com máscaras no seu interior. Andava tudo em camara lenta, como num filme. Ao longo do percurso via o mar. Parar o carro para nele mergulhar não era opção. As praias estavam interditadas. E o mar. Esse meu mar que quer fizesse sol ou tempestade, vento, chuva ou lua, tinha sempre companheiros.  Nos areais agora só as gaivotas, restos de lixo humano trazido pelas marés ou os pombos urbanos, veraneantes o ano inteiro. Os companheiros de sempre do mar, aqueles que em seu corpo navegavam, não estavam. Não havia lembrança disso a não ser nas escassas horas dos dias das perigosas Caravelas Portuguesas. A minha praia estava nua. A praia onde todos cabiam e tudo se juntava, estava como num quadro pintado por um pintor romântico dos séculos em que a paisagem não era humana e só à natureza dizia respeito. 
   A colocação da figura humana no meio natural estava proibida, e nós vivíamos assim, presos, confinados ao nosso teto, quem tivesse a sorte de o ter. A procura do outro, do simples convívio de café era tão urgente como respirar. Não se ouviam risos, gargalhadas muito menos. O burburinho dos recintos fora substituído pelas portas trancadas com avisos e os meus passos ecoavam nas ruas cheias de tudo e de ninguém. Quando entrava com laivos de transgressora na mata sentia-me livre. Quando via alguém ao longe sentia-me cúmplice. Olhos ao longe assentiam: eu sei, eu sei o que sentes. 
  O meu cão parecia um filho desobediente. A experiência do mimo num animal é muito estranha, fica parecido com uma pessoa teimosa e de exigência soberba. Estava mais pessoa do que nós. Um puto mimado que não precisava de máscara. 
   Olhei pelas entradas vedadas da praia com cercas e fitas. Ao longe, viaturas das forças de segurança faziam o cordão sanitário do concelho na rotunda.Que fariam agora os surfistas em casa? Pertenciam à praia desde que nasceram. Que fariam aqueles que corriam ou molhavam o pé na baixa-mar? E aqueles corpos celestes terrenos que jogavam footvolei? E as crianças que brincavam no areal?    Deu-me a desolação no meio da ondulação dos meus olhos espelhados pela beleza da paisagem vazia. Até na minha ilha os golfinhos tinham ido até à areia para procurar os seus companheiros de sempre. Os rapazes das pranchas há muito que não apareciam. Aqueles mamíferos de inteligência superior procuravam saber dos Homens. 
Aproximei-me da rotunda. Não podia voltar para casa sem por lá passar. Mandaram-me parar. 
- Vim só fazer a reciclagem. 
Olhando para mim incrédulos, por detrás das viseiras de proteção, mandaram-me abrir o porta bagagens. A espreitar dos caixotes viam-se catálogos de viagens para as férias e uma agenda desse ano de 2020.
 - Essa agenda, não a recicle! Não queremos a renovação de um outro ano como este!
Mandaram-me seguir.


                                                                       UM OUTRO ANO
                                                                       Luísa Costa Macedo
                                                                       Abril 2020