Fogo fátuo

Debicavas o chá fresco a levitar.                                   
O copo, bebia-lo como se néctar dos deuses fosse. A tua postura diferente, relaxada e incomumente sensual. 

Sentei-me à tua frente vindo num rasto de fumo e pressão.                                      

Estavas com uma nova cara.                     
Outra pessoa. Até a tua roupa era de novos e estranhos fios, feita de uma daquelas tonalidades que nunca tinhas ousado usar. Um rosa forte flor-de-trópicos que te iluminava a pele.


Nos teus olhos um brilho adolescente. 

Do encantamento, da pureza que vem de uma felicidade há muito esquecida. Daquela que é impossível coexistir num quotidiano de trabalho cinzento ou na repetição da vida de casa. Os círculos negros à volta dos teus olhos (lindos, sempre, mesmo assim) tinham desaparecido sob essa nova faísca quase sobrenatural.


Parecias mais leve. 

A doçura amarga meteste-a no saco colorido que trazias e, em vez dessa, uma astúcia lúbrica e brincalhona que saltitava como um pequeno pardal. De bicos de pés eras agora uma bailarina que se movia graciosamente sem esforço aparente. O mundo já não estava sobre as tuas costas.                                                                                          

Perguntei-te, então, se já estavas de volta.  
Subitamente azulaste num fogo fátuo, ficando só uma pequena e parda pena entalada no buraco da velha cadeira de palha do café do coreto.



                                          Luisa Costa Macedo